Então, “Nós precisamos de parteiras? ”

Por Maria Inês Rosselli Puccia

Traduzido em português a partir do original britânico “Do We Need Midwives?”, este livro de Michel Odent lançado no Brasil em novembro de 2016, traz inúmeras reflexões sobre a forma de nascer e o futuro da humanidade.

Então, “Nós precisamos de parteiras? ”

Segundo o autor, “(…)chegamos a uma fase da história na qual a medicina neutralizou as leis da seleção natural, acarretando um efeito disgênico nos seres humanos”. Desta maneira, graças aos progressos tecnológicos e científicos, progressivamente a população irá se tornando cada vez mais dependente da medicina. Ademais, o advento das terapias gênicas abre as portas da ciência para a manipulação de informações genéticas. Seres humanos geneticamente modificados serão um dilema ético futuro ou atual?

O autor também sugere, que em certa medida, o modelo biomédico selecionado como hegemônico para o cuidado centrado na doença, vai de encontro aos interesses financeiros de parte da categoria médica, que encontra um campo de atuação altamente lucrativo.

Isto se aplica em diversos segmentos da atenção à saúde. Entretanto, na maneira de nascer as transformações são impactantes. Desde a migração do local de parto, do domicílio para o hospital, até a prática de partos altamente medicalizados que ocorrem nos dias atuais. Especialmente no que se refere ao uso da ocitocina sintética, a peridural e as cesáreas e o que advém destas práticas.

Quando a cesárea passa a ser considerada uma maneira “normal” de nascer, a discussão flui para um foco de extrema importância – qual seu momento mais apropriado?

Estudos citados pelo autor sugerem inúmeras diferenças entre as cesáreas realizadas antes do início do trabalho de parto e no intraparto. Isto porque o estresse do trabalho de parto oferece efeito protetor ao neonato, na medida em que a síntese hormonal desencadeada, estimulará a maturação final dos pulmões. Também pode beneficiar o desenvolvimento do olfato e prevenir a obesidade futura, através da produção de maiores concentrações de adiponectina, um hormônio que atua no metabolismo das gorduras. Nas cesáreas antecipadas o microbioma do leite materno também se altera, assim como a maturação da flora intestinal do bebê, com repercussões significativas a longo prazo.

Assim, sob a perspectiva epigenética, é importante considerar a situação “utópica” de que o primeiro contato com o mundo seja feito com a mãe ainda sob efeitos da ocitocina, prolactina, endorfinas, em um ambiente de nascimento em que ela possa facilmente transmitir seu microbioma para o bebê, uma vez que a regulação do sistema imunológico é supreendentemente desencadeada ao nascer.

Sob a perspectiva da humanização é óbvia a conclusão de que uma mulher amparada no parto se sente mais segura. Seria “utópica” a “inibição neocortical como essencial para os partos humanos e mais fáceis, de forma a permitir que o sistema fisiológico de proteção contra a dor possa alcançar eficácia necessária? ”

Então, respondendo à pergunta inicial: “Se uma tal mudança de paradigma for possível, a parteira desempenhará um papel central enquanto protetora do nascimento, privilegiando o parto vaginal sem complicações e a cesárea intraparto, mas não de urgência.”

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