O Momento Mágico do Primeiro Encontro – Sobre contato pele-a-pele, imprinting e teoria do apego

Por Maria Inês Rosselli Puccia

Você já percebeu que o jeito de nascer pode ser repensado?

Menos sobre as vias de parto propriamente ditas, ou seja, parto normal ou parto cesárea. Mais pela questão de repensar o nascimento em si – o grande dia em que o bebê será acolhido e recebido!

Segundo o pediatra espanhol, Carlos Gonzalez “Cada vez que nasce uma criança, nasce também um pai e uma mãe. E, a partir daí, crescem juntos em sabedoria e em virtude”.

Estamos falando da relação de vínculo e apego – sobre novos paradigmas e evidências que dão suporte para que esta relação seja estabelecida o mais precocemente possível e, principalmente, para que seja vivenciada em sua plenitude.

Os estudos iniciais (década de 1940) de John Bowlby, especialista inglês em psiquiatria infantil, possibilitaram o desenvolvimento da teoria do apego. Esta teoria combina aspectos da biologia moderna com elementos da psicologia como o afeto, cognição e memória, de forma integrada ao processo de desenvolvimento da criança e a sua adaptação ao mundo real. Ele considerou o apego como um mecanismo básico dos seres humanos, assim como a alimentação e a sexualidade, por exemplo.

Bowlby buscou alternativas embasadas na psicanálise, biologia evolucionária, etologia, psicologia do desenvolvimento, entre outras áreas do conhecimento, contando com a colaboração de pesquisadores como Mary Ainsworth. Eles concluíram que o modelo de apego que a pessoa desenvolve durante a primeira infância é profundamente influenciado pela interação desenvolvida com sua mãe, e pela relação estabelecida com os demais cuidadores primários, incluindo o pai.

Desde o nascimento o bebê dá sinais de que precisa de proximidade. Isto é uma característica inata dos seres humanos e mamíferos em geral. Ainda segundo Bowlby, o desenvolvimento do vínculo se dá pelas capacidades cognitivas e emocionais da criança e pelos sinais de sensibilidade, afeto e proteção intrínsecos aos cuidados recebidos, com reflexos para a vida toda.

No entanto, existe algo muito especial nas primeiras horas de vida logo após o nascimento, que motivou a realização de estudos interessantes sobre o desenvolvimento do apego neste momento, também conhecido como período sensitivo.

É importante deixar claro que esta relação tem início até mesmo antes da gestação, quando o casal começa a planejar a parentalidade. Depois, com o desenvolvimento da gestação – as modificações do corpo da mulher, os primeiros exames que permitem a ausculta do coração do bebê, seus movimentos ativos, as imagens da ultrassonografia, o afeto e o vínculo vão se estabelecendo gradativamente.

Sabemos hoje que durante o período sensitivo são estabelecidos os primeiros laços de afeto na chegada do bebê ao mundo exterior – uma relação única que vincula mães e filhos ou filhas por toda a vida, a partir de um apego progressivo. O mais interessante é que o recém-nascido vem preparado para esta relação e ainda, a interação do pai neste momento, pode significar ainda mais a potência deste período sensitivo.

Sabe-se que durante um lapso de tempo de 3 a 5 minutos após o nascimento, o bebê desenvolve um estado de alerta muito significativo que dura em torno de 40 a 60 min. Durante o primeiro mês de vida ele não terá um período tão longo de alerta como este, segundo o médico chileno Fernando Pinto. Este processo é mediado por uma intrínseca produção de hormônios entre a mãe e o bebê. Ele é base para o início da amamentação – mas este será o tema de outro post do blog, aguarde!

De acordo com Konrad Lorenz, Nobel de Medicina de 1973, durante este período sensitivo ocorre uma visualização atenta e profunda entre o bebê e sua mãe. A “magia” presente nesta troca de olhares é chamada de imprinting. Neste reconhecimento são ativados todos os órgãos do sentido – estímulos olfativos através dos odores do líquido amniótico e dos mamilos maternos; táteis por meio do contato pele-a-pele e, auditivos – o choro do bebê, seus primeiros ruídos, além dos sussurros maternos. Isto mesmo, é como se fosse uma impressão, um carimbo na mente, na memória, através da qual ambos se reconhecem. Então, o bebê ciente de que é ela a sua mãe, passará a segui-la por muitos anos em busca de cuidados e proteção necessários para o seu desenvolvimento e sobrevivência.

É por isso que o contato a pele-a-pele é tão importante! A emoção – chorar, abraçar, olhar, agarrar, aconchegar, sorrir e até mesmo lamber, fazem deste momento uma festa de boas-vindas.

Parece simples, mas na realidade, para que esta “hora do ouro” seja priorizada, ainda é preciso que as rotinas de assistência ao parto sejam reformuladas em muitos hospitais do país. Por outro lado, é importante que as gestantes e casais possam exercer sua autonomia através de escolhas livres, esclarecidas e seguras com relação ao parto e nascimento do seu bebê.

O Preparo Materno está aqui para discutir novas evidências científicas, oferecer apoio, dicas e técnicas que podem tornar a experiência de parto, nascimento e amamentação muito mais tranquila e transformadora.

 

DALBEM JX, DELL’AGLIO DD. Teoria do apego: bases conceituais e desenvolvimento dos modelos internos de funcionamento. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 57, n. 1, p. 12-24, 2005.

PINTO FL. Apego y lactancia natural. Rev Chil Pediatr, v. 78 (Supl 1), p. 96-102, 2007.

MOBBS EJ, MOBBS GA, MOBBS AED. Imprinting, latchment and displacement: a mini review of early instinctual behaviour in newborn infants influencing breastfeeding success. Acta Pædiatrica, n.105, p. 24–30, 2016.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

9 − sete =