Mindfulness na gestação: estudos, evidências e benefícios reais

Por Maria Inês Rosselli Puccia1

Nesta última semana uma cliente, aconselhada pelo seu obstetra, me procurou buscando por  informações sobre o GentleBirth. Nossa conversa foi interessante porque, assim como muitas pessoas, ela não conhece o mindfulness e me desafiou a convencê-la em poucos minutos sobre os efeitos desta prática no bem-estar físico e mental das gestantes. E ainda, como isso pode ajudar em uma experiencia de parto mais positiva?

Eu atuo na área acadêmica e diria que até bem pouco tempo atrás os estudos sobre os benefícios do mindfulness na saúde das pessoas em geral, não somente na gravidez, eram muito escassos. Atualmente são muitos e a grande maioria apresenta evidências significativamente positivas sobre os seus efeitos.

Um estudo bem interessante realizado no Reino Unido, foi publicado em setembro do ano passado e partiu de um programa de preparação para o parto com gestantes e casais (86 mulheres e 69 homens) atendidos em uma maternidade do Sistema Nacional de Saúde (NHS). Eles participaram de um curso de dez horas onde foram devidamente instruídos e preparados para a prática de mindfulness e, após nove semanas foram avaliados de acordo com os critérios definidos pelo estudo (Warriner et al., 2018).

Os resultados mostraram avaliações positivas nos escores reativos à saúde mental materna e paterna. As gestantes e puérperas demonstraram melhora significativa nos sintomas de estresse, ansiedade, depressão, angústia relacionada à gravidez e preocupação com o parto; para os homens também foi observada redução significativa de ansiedade, depressão e tendência de melhora no exercício de suas funções diárias e da paternidade (Warriner et al., 2018).

Acrescenta-se que o mindfulness proporciona maior autocontrole no trabalho de parto, pois aumenta a resiliência emocional, ou seja, a capacidade de adaptação às  novas situações, aos desafios cotidianos, de forma a tomar decisões mais apropriadas, com maior autoeficácia (Duncan et al., 2017; Smith et al., 2018).

Um estudo randomizado (ver comentários abaixo) realizado em Valencia (Espanha), identificou que comparadas ao grupo controle, as gestantes submetidas a 8 semanas do programa de mindfulness apresentaram avaliações significativamente maiores de autoestima, segurança, não julgamento, não reatividade, autocompaixão, menos ansiedade, estresse e sofrimento psíquico na fase inicial da maternidade (Perez-Blasco et al., 2013).

Os autores do estudo inglês recomendaram que a prática de mindfulness seja implementada pelo NHS, pois os seus resultados são promissores na promoção da saúde mental dos pais e, desta forma portanto, para a saúde da próxima geração (Warriner et al., 2018).

Todas estas conclusões precisam ser analisadas com cuidado, porque ainda se coloca o desafio científico de realizar estudos controlados – que denominamos como randomizados, para avaliar os efeitos terapêuticos de uma dada intervenção.

Por exemplo, para avaliar os efeitos de um medicamento para alívio da dor, ou da analgesia de parto, as participantes são incluídas de forma aleatória. Um grupo recebe o tratamento e o outro, chamado de controle, recebe o placebo. As participantes e, em vários experimentos os próprios pesquisadores, não sabem quem recebeu o tratamento e quem recebeu placebo.  Estes são os estudos que apresentam níveis de evidências mais confiáveis.

Ou seja, os estudos disponíveis nas bases de dados mais confiáveis, embora muito bem conduzidos metodologicamente, acabam sendo classificados com nível de evidência inferior. Este fato, acaba interferindo sobremaneira na confiança dos profissionais da saúde, particularmente dos médicos, com relação à prática de mindfulness. Os resultados empíricos do cotidiano falam por si próprios, as mulheres que utilizam o mindfilness durante a gestação também relatam os efeitos positivos por si mesmas.

No entanto, é fato que aqui no Brasil, o uso desta prática vem aumentando, mas ainda é cercada de mitos e incertezas pela sociedade de uma forma geral.

Lançado então este primeiro desafio da análise menos preconceituosa das evidências científicas, partamos para o próximo: ampliar e incentivar a utilização do mindfulness em todo o ciclo da gravidez, parto e pós-parto, e realizar bons estudos nacionais para que mais mulheres, mais homens e mais crianças desfrutem de seus benefícios.

Referências:

Duncan LG et al. Benefits of preparing for childbirth with mindfulness training: a randomized controlled trial with active comparison. BMC Pregnancy and Childbirth (2017) 17:140

Perez-Blasco J, Viguer, P, Rodrigo MF. Effects of a mindfulness-based intervention on psychological distress, well-being, and maternal self-efficacy in breast-feeding mothers: results of a pilot study. Archives of Women’s Mental Health; 16(3): 227-236, 2013.

Smith CA, Levett KM, Collins CT, Armour M, Dahlen HG, Suganuma M. Relaxation techniques for painmanagement in labour. Cochrane Database of Systematic Reviews 2018, Issue 3. Art. No.: CD009514. DOI: 10.1002/14651858.CD009514.pub2.

Warriner S., Crane C., Dymond M., Krusche A. An evaluation of mindfulness-based childbirth and parenting courses for pregnant women and prospective fathers/partners within the UK NHS (MBCP-4-NHS). (2018) Midwifery, 64, pp. 1-10.

Doutora em Ciências pela USP. Mestre e Especialista em Saúde Pública pela USP. Graduada em Enfermagem pela Escola Paulista de Medicina/UNIFESP. Professora universitária e educadora perinatal com certificação internacional pelo Programa Gentlebirth® e Abordagem Spinning Babies®.

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