Os Desafios para Garantir o Direito de Usufruir da “Hora de Ouro” do Nascimento

Por Maria Inês Rosselli Puccia

Rotinas hospitalares rígidas e desconhecimento sobre o tema, podem dificultar o contato pele-a-pele na primeira hora de vida, o imprinting e inicío do aleitamento materno.

Parece simples, mas na realidade, para que esta “hora de ouro” seja priorizada, ainda é preciso que as rotinas de assistência ao parto sejam reformuladas em muitos hospitais do país.

Desde 1996, a Organização Mundial da Saúde recomenda a adoção de práticas que visem a promoção do parto e nascimento saudáveis. Estas práticas incluem o respeito ao processo fisiológico e a dinâmica de cada nascimento, nos quais as intervenções devem ser cuidadosas evitando-se os excessos e utilizando-se criteriosamente os recursos tecnológicos disponíveis.

Aqui no Brasil, ainda vivemos situações muito distintas na assistência ao parto. Se por um lado podem faltar tecnologias apropriadas para evitar o adoecimento de mães e bebês, do outro ainda ocorre uso intensivo e rotineiro de procedimentos considerados desnecessários quando está indo tudo bem no trabalho de parto. Ou seja, quando é avaliado pela equipe de saúde que os parâmetros de bem-estar materno e fetal estão adequados.

Em fevereiro deste ano, a Organização Mundial da Saúde lançou um documento técnico com recomendações para uma experiência positiva de parto. Segundo Nothemba Simelela, diretora-geral da OMS, “(…) a crescente ‘medicalização’ de parto está minando a capacidade das mulheres de dar à luz, e afetando negativamente sua experiência de parto”.

Infelizmente o parto ainda é muito medicalizado no Brasil. Grande parte das mulheres tem medo do parto, ficam ansiosas, estressadas achando que algo ruim pode acontecer consigo próprias ou com seus bebês. Fatores influenciadores como o medo, a dor, pensamentos negativos, entre outros, acabam gerando intervenções para acelerar todo o processo do nascimento. Na verdade, elas poderiam ser evitadas, uma vez que podem causar danos secundários tanto para a mãe, quanto para o bebê.

A impossibilidade de usufruir do contato pele-a-pele logo após o nascimento e não poder amamentar ou mamar na primeira hora de vida também devem ser compreendidos como danos importantes para a saúde da criança e da mulher.

O Preparo Materno acredita que gestantes e casais informados podem definir suas preferências de parto e nascimento, incluindo a hora de ouro em suas preferências de parto, independentemente de ser normal ou cesárea.

Escolhas seguras, informadas, além de autoconfiança e resiliência emocional, sem dúvida, são essenciais para o diálogo e negociação com os serviços e equipes de assistência ao parto.

 

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Maternidade segura. Assistência ao parto normal: um guia prático. Genebra: OMS, 1996.

DINIZ, SG. Gênero, saúde materna e o paradoxo perinatal. Revista Brasileira de Crescimento e Desenvolvimento Humano, São Paulo, v. 19, n. 2, p. 313-326, 2009.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO recommendations: intrapartum care for a positive childbirth experience. Geneva: WHO, 2018.

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