Por que agregar a hipnose ao programa de preparação para o parto?

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Por Maria Inês Rosselli Puccia

Longe de ser apenas um processo de transformações físicas relacionadas às condições essenciais para a concepção e desenvolvimento saudáveis, a gravidez representa um momento de intensas necessidades e mudanças psicossociais.

Estas transformações geram necessidades específicas, que interferem substancialmente no bem-estar emocional da mulher, tanto no momento presente, quanto mais adiante – logo após a chegada do bebê, quando se estabelecerão as bases para o exercício da parentalidade (COATES et al., 2014).

Por outro lado, o sofrimento mental materno poderá ocorrer ou ser potencializado, na medida em que o medo e a ansiedade em relação ao parto se façam presentes. De acordo com um estudo holandês realizado com gestantes saudáveis, a prevalência do sofrimento mental pode acometer 3 mulheres em cada grupo de 10 gestantes (KUIPERS, 2016).

Em grande parte dos casos, o medo está condicionado à dor do parto. Ou seja, trata-se de um medo proveniente de experiências pessoais negativas em relação ao parto anterior, ou socialmente construídas a partir dos relatos de outras mulheres, como também por parte das inúmeras informações disponíveis nos veículos de comunicação e nas mídias digitais.

Entende-se que proporcionar um cuidado integral, centrado nas necessidades e demandas específicas de cada mulher, respeitando suas singularidades e vulnerabilidades individuais, consiste no grande desafio das equipes de saúde que atuam na atenção perinatal (MACHADO & PRAÇA, 2006).

Portanto, este novo paradigma assistencial inclui o suporte emocional, associado à desconstrução dos medos associados à dor do parto e às transformações físicas e psicossociais envolvidas durante todo o processo de gestar e iniciar a maternidade.

Então, a hipnose apresenta-se como uma alternativa benéfica para a promoção da saúde mental e do bem-estar materno, com significância considerável a partir das evidências científicas mais recentes (MC ALLISTER et al.,2017; MADDEN et al., 2012).

No entanto, a prática da hipnose na gestação e no parto ainda vem agregando novas adeptas gradativamente. Aqui no Brasil, a prática da hipnose no parto ou na gestação ainda é pouco indicada pelos profissionais envolvidos o cuidado perinatal.

A formação multidisciplinar das equipes de saúde pode dirimir os preconceitos com relação à prática da hipnose tanto no parto quanto na gestação. Ou seja, se os profissionais desconhecem a técnica, ou não dispõem de conhecimentos a respeito dos benefícios desta prática, obviamente não apoiarão as suas clientes quanto ao seu uso (MC ALLISTER et al.,2017).

Em outras palavras, o que se propõe é que sejam rompidas algumas barreiras ainda existentes com relação à prática da hipnose, para que um número maior de gestantes possa se beneficiar dos seus resultados, especialmente a construção da confiança na capacidade de parturição, o desenvolvimento da habilidade de autocontrole, a promoção da resiliência emocional e maior autoeficácia para a vivência de uma experiência de parto positiva.

A prática da hipnose durante a gravidez poderá trazer muitos benefícios na reversão dos vieses de negatividade sobre o parto e nascimento, que foram se acumulando na mente subconsciente ao longo da vida a partir de vivências e impressões.

Compreendendo a hipnose proposta pelo GentleBirth – Primeiramente é importante esclarecer que não se trata de hipnoterapia. A hipnose para fins terapêuticos tem efeitos muito positivos para o tratamento de diversas condições relacionadas ao sofrimento mental, desde que praticada por profissional habilitado para este fim.

Este não é o caso da hipnose proposta para a educação perinatal, que tem por objetivo  proporcionar conforto e relaxamento às gestantes e parceiros(as) a partir de um estado de transe hipnótico. Ou seja, um dos níveis mais leves de hipnose (DONEGAN, 2018).

Mas no que consiste a hipnose de fato?

De uma forma lúdica, podemos compreender a hipnose como uma estratégia para enganar a mente consciente que estabelece guarda na entrada para a mente subconsciente. Esta “guarda” funciona como um mecanismo de defesa fundamental para nossa sobrevivência, pois é na mente subconsciente que são processados os comandos para as funções vitais do organismo. Mas é nela que também se encontram armazenados os nossos sentimentos, emoções e memórias de longo prazo.

Desta forma, a hipnose provocará uma distração nos “guardiões” da mente consciente e, por meio de sugestões positivas, será possível acessar inúmeros registros, memórias, crenças e valores que podem interferir nas impressões da gestante sobre o  parto, substituindo pensamentos e sentimentos indesejáveis (medo, insegurança, sensação de impotência, incapacidade, etc.),  por outros novos, mais saudáveis e benéficos para todo o processo de gestação, nascimento e criação dos filhos.

Importante esclarecer que o estado hipnótico não implica em perda da consciência. A pessoa permanecerá com o controle sobre tudo o que ocorre ao seu redor. Não fará nada que não queira fazer, também não revelará seus segredos, a menos que assim seja a sua vontade. Além disso, é possível sair do estado hipnótico a qualquer momento.

A hipnose poderá ser guiada por uma instrutora durante o workshop, ou realizada em casa através dos áudios disponíveis no aplicativo GentleBirth. Com a prática rotineira, será possível desenvolver e aprimorar a habilidade, ou seja, a capacidade de se permitir a condução pelo estado hipnótico – uma conexão profunda entre a mente e o corpo materno com o seu bebê.

Referências:

Coates R, Ayers S, de Visser R. “Women’s Experiences of Postnatal Distress: A Qualitative Study.” BMC Pregnancy and Childbirth 14 (2014): 359. PMC. Web. 20 Aug. 2017.

Kuipers, Yvonne F. An Intervention to Prevent and Reduce Maternal Distress in the Netherlands – Its Development from Start to Finish. Women Heal Int 2(1): 115.

Machado NXS, Praça NS. Centro de parto normal e a assistência obstétrica centrada nas necessidades da parturiente. Rev Esc Enferm USP 2006; 40(2):274-9

Madden K, Middleton P, Cyna AM, Matthewson M, Jones L. Hypnosis for pain management during labour and childbirth. Cochrane Database Syst Rev. 2012 Nov 14;11:CD009356. doi: 10.1002/14651858.CD009356.pub2.

McAllister, Sophie et al. Healthcare professionals’ attitudes, knowledge and self-efficacy levels regarding the use of self-hypnosis in childbirth: A prospective questionnaire survey. Midwifery, Volume 47, 8 – 14.

Donegan, Tracy. Treinamento de hipnose. Guia GentleBirth. [on line]. 2018. Disponível em <https://www.gentlebirth.com/app>. Acesso em 14 jan. 2019.

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